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Revista Mês entrevista Fábio Vital

 

Confira a entrevista concedida por fabio Vital, sócio fundador do Instituto Acqua, a Revista Mês, publicada na edição nº 02 de Julho de 2009.
Por:Wallace Nunes
 
 
“O Rodoanel é uma obra comum”
Fabio Vital, arquiteto de profissão, é um urbanista e ambientalista que realmente sabe o valor da palavra sustentabilidade. Sóciofundador do Instituto ACQUA, uma das primeiras entidades a fazer o mapeamento ecológico da região do ABCD, rasga o verbo e diz que os homens considerados
“fiscais do Meio Ambiente” são culpados por não apresentarem uma proposta contundente para os prefeitos, que o Rodoanel Mário Covas é apenas mais uma obra e que as invasões em áreas de mananciais vão continuar a existir se ninguém fizer um plano diretor que integre todas as camadas sociais da região.
“Precisamos articular e fortalecer o posicionamento técnico e político do ABCD frente ao licenciamento, concessão de serviços, compensações e gestão financeira de recursos. De que adianta um patrimônio estratégico, encravado no ABC, se não há políticas de valorização e compensação dos serviços ambientais prestados?”
Ex-morador de Santo André, este homem que possui espcialização em gestão pública – já trabalhou no governo do ex-prefeito Celso Daniel –, se mudou para uma ampla casa Rodovia Índio Tibiriçá em busca de melhor qualidade de vida. “Senti que na cidade a liberdade de ir e vir estava se perdendo por isso me mudei”, diz Vital.
 
O senhor já detectou algum trabalho de consciência ambiental nestes
mais de cem dias dos novos governantes municipais da região?
Fabio Vital (FV) - A questão ambiental no Brasil, como um todo, ainda é incipiente. Há bons técnicos em todas as esferas dos governos, sejam eles federais estaduais ou municipais, mas a estrutura de trabalho para estes profissionais ainda é pequena. No meu entender, nenhum político brasileiro enxergou que a questão ambiental pode oferecer instrumentos para uma boa gestão pública e aumento da qualidade de vida. Se houvesse essa consciência, o ônus seria enorme.
A lógica dos governos nas três esferas do Executivo é de governo inchado de bons profissionais, mas que estão ali apenas para fazer um papel figurativo. Mesmo que o técnico apresente um projeto interessante, por exemplo, de reciclagem de lixo ou fim da ocupação nas regiões de mananciais, para propiciar a melhoria da qualidade de vida dos moradores não vão
ser estimulados porque serão barrados por interesses políticos, seja ele, um vereador ou um deputado ou mesmo um prefeito.
Há um vicio histórico dos políticos que comandam as cidades grandes que impede o aumento da consciência ambiental.

O senhor quer dizer que a sustentabilidade ambiental na política não existe?
(FV) - Ainda de maneira geral não. Mas tomemos como exemplo a questão imobiliária na região do ABCD. Nos últimos anos houve um crescimento significativo de ofertas de moradias horizontais, próximas das áreas de mananciais, e verticais. É legal, não vejo problemas quanto ao crescimento, mas sustentabilidade que gere uma verdadeira qualidade de vida não existe. Tudo está sendo construído sem um mínimo de consciência ambiental.
Melhor dizendo ecologicamente correta. Sou arquiteto de formação e sei que
às vezes sou criticado pelos colegas por causa da minha opinião.
Santo André e São Bernardo tinham áreas complemente horizontais que passaram a ser verticalizadas. Mas isso é bom? Teve um plano por traz disso? Teve impacto na paisagem? Nestas cidades a quase um século de paisagens horizontais que foi ou será destruída por causa do aumento da demanda de verticalização. Isso pode ser bom num primeiro momento, pode sim dinamizar a economia, mas a paisagem deve ser tratada com certo cuidado, mas sabemos que não vai acontecer.

E qual é o impacto desta falta de consciência?
(FV) - Bom, podemos pegar como exemplo a vida útil de um edifício que é mais
ou menos de 100 anos. O prédio construído a toque de caixa não é  ecologicamente correto. Não valoriza a ventilação natural e não tem um projeto de reciclagem de lixo. Vai tudo ficar na mesma por 100 anos se não houver o cuidado adequado desde sua construção. Digo mais, a correria pela construção do edifício gerou impacto econômico para a cidade? Pelo contrário. Primeiro porque a mão de obra destes investimentos não é local. Mais da metade dos trabalhadores vieram de outros estados e ficam abrigados nos prédios em construção até a obra terminar. Quando acaba tudo, o operário decide ficar pela
região, mas como não encontra um lugar que possa pagar ele vai para um local de condição sem estrutura. Possivelmente para uma área invadida. No ABCD, com certeza a invasão ocorrerá numa área de manancial. Mas e os projetistas contratados por estas empresas não viram isso?
Não porque esses projetistas também não são locais, geralmente vem de fora. E o IPTU arrecadado é suficiente para resolver os problemas de adensamento daquele local invadido? Não defendo o bairrismo, mas sim um crescimento sem dispersão econômica. Que a cidade gere renda para a própria cidade. Tudo isso é uma consciência ecológica que ajudará no dispersamento de poluição, melhoria da qualidade do ar entre outras questões.

Então o senhor defende um plano diretor com prioridade maior à sustentabilidade ambiental do que econômica?
(FV) - Fazer uma cidade compacta, ou fazer a cidade se compactar, guardadas as devidas proporções, para aproveitar a infra-estrutura já disponível é plenamente possível. Uma cidade mais justa do ponto de vista social também é plausível. Moradores das periferias estão excluídos das questões sócioambientais.
Só servem de força de trabalho e nada mais. Defendo um modelo de cidade
mesclada entre classes sociais para melhoria da consciência ambiental e também econômica. Conviver num ambiente equilibrado de classes sociais diferentes pode ser bem mais harmônico e vai gerar grandes benefícios como o fim da violência em uma área comercial. Isto definitivamente é uma tendência
diferente de planejamento. As cidades do ABCD não estão vocacionadas para
atividades de lazer e econômicas ao mesmo tempo. Mas tudo isso tem um custo e sei que é caro e creio que seja um dos motivos que um plano como este pode não avançar.
Para que ocorra essa consciência, o senhor não acha que os ambientalistas
têm errado na forma de divulgação?
(FV) - A galera da área ambiental e muitos que não são ligados ao meio ambiente pensam de forma igual a minha. São os mesmos princípios e todos estão revoltados com a mesma falta de foco. Todos sabem que estes problemas de falta de consciência ambiental não nasceram há dez anos e nós não temos muita voz se alterarmos a lógica atual da conversa, que é sustentabilidade ambiental com crescimento econômico.

Por exemplo?
(FV) - Outro dia comecei a discutir tais questões com um grupo de economistas.
Logo se perguntaram: Quem chamou esse fulano? Será que ele entrou na porta certa? Mas se por um acaso começar a discutir o assunto por um viés econômico passando enfim pelo ambiental ai a aceitação será melhor e todos vão compreender. Infelizmente se ficar discutindo questões ambientais apenas para um grupo de ambientalistas não terei voz.

Então podemos entender que tomar medidas econômicas com base na sustentabilidade ambiental pode significar o início da mudança da região?
(FV) - Na minha percepção isso é inevitável. Veja as grandes discussões mundiais. São de vieses econômicos, mas com roupagem sócio-ambientais. Pego como exemplo as dificuldades de alimentação do mundo nos dias atuais. Eles pensam: onde está o celeiro? Onde precisa ser plantado? Se aumentarmos a área de plantio não vamos entrar em choque com a questão ambiental? É preciso entender a cadeia que gerou tal alimento. Os litros d’água utilizados para irrigar o alimento e o desperdício de consumo do mesmo. Se não cuidarmos do início não teremos o meio muito menos o fim. Por exemplo,
se as cidades em torno da área de manancial não cuidar da represa Billings não
haverá água o suficiente para abastecer a população. A região de Mata Atlântica
está sendo degradada e ninguém faz absolutamente nada.

Mas recentemente o Governo do Estado anunciou um plano de retirada das
famílias da Serra, que é de Mata Atlântica, e que leva ao litoral paulista.
(FV) - Sim, mas e ai? Até o momento nenhuma família saiu de lá pelo que sei.
Pelo contrário, o que vejo são políticos se aproveitando cada vez mais. Olha, vota em mim que vou colocar uma linha de ônibus aqui. E por ai vai. Essa discussão [da retirada] das pessoas só toma força quando há números e coloca a dimensão econômica. Na minha opinião eles devem ter visto o custo da retirada no papel e por isso a coisa esfriou.

Há algum tempo o senhor tem falado em rediscussão da lei dos mananciais
Dá para explicar o por quê?
(FV) - Simples, para dar um basta ao crescimento desordenado. A água está ficando cada vez mais poluída por conta do acúmulo de esgoto. Isto é resultado do modelo desenvolvimentista adotado por décadas em nosso país (de fora para dentro), de forma míope e reducionista, refletindo um universo de contradições, conflitos, degradação ambiental e exclusão social. A ausência
de planejamento efetivo, resultado de governos míopes, apenas enraizou a visão setorial que permeia até hoje as várias esferas de administração, o que implodiu a sua capacidade administrativa e gerencial. Se de um lado podem melhorar áreas degradadas e gerar empregos no setor da construção civil, de outro poderão estar sobrecarregando a infra estrutura de água e esgoto, entupindo mais as vias locais, adensando milhares de pessoas usuárias de
equipamentos urbanos insuficientes, além de transformar a paisagem e comprometer a salubridade ambiental.

Isso não seria muito radical?
(FV) - Eu acho que invasão nenhuma é adequada.
 
Mas o processo de ocupação, na região de manancial vem ocorrendo a mais de
30 anos e não para. Se falar da noite para o dia que não pode ocupar vai ser
instaurado o caos.
(FV) - Temos que resolver de alguma maneira a questão da moradia sem ocupação da área no entorno da represa Billings. Sei da necessidade de uma pauta de diálogo. Discuti isso no governo Celso Daniel, em Santo André,
mas não houve avanços significativos. Então o meu posicionamento: manancial não ocupar, área urbana ter empreendimento habitacionais populares mesclados.

Mas não é assim que o mercado pensa.
(FV) - O mercado não pensa assim, ainda pensa de olho no passado. Área urbana nobre é nobre não queremos pobre, periferia é pobre e se não couber mais ninguém lá pula para algum lugar que não seja o nosso. Desta maneira o pobre vai continuar a jogar lixo na represa porque está alijado da consciência ambiental.

Por falar em jogar lixo o senhor acha que a consciência ambiental dos moradores da região do ABCD e em São Paulo melhorou no que se refere a preservar, reciclar e mostrar certa sustentabilidade?
(FV) - Melhorou muito, mas é preciso mais. Na minha visão, o grande vilão
por não avançarmos mais é a mídia e a publicidade em torno do produto. Tomo
por exemplo uma caixa de creme dental. O tubo vem numa caixinha de papel, ou papelão, bem bonito, que não dá para fazer mais nada depois que abrimos a pasta. Para onde vai à caixinha? Para o lixo. Voltemos ao exemplo da cadeia de produção. Caixinha que foi para o lixo é papel, tirada de uma árvore derrubada.
Nossos aterros sanitários estão em colapsos por conta de exemplos como estes.
Agora imagine você se tomarmos os exemplos das garrafas PET? Não precisamos ir muito longe na Billings dá para ver ao menos 10 garrafas PET’s boiando na água. Quanto tempo isso vai levar para se decompor? Outro dia encontrei colegas europeus que defendem a questão ambiental e os mesmos me disseram que nos elogiavam porque usávamos garrafas retornáveis de vidro, mas agora quase que não é mais possível ver isso.
 
Mas somos campeões mundiais de reciclagem de alumínio.
(FV) - Somos campeões por uma necessidade financeira. Já virou parte da renda
do pobre pegar latinhas de alumínio nas ruas para poder vender na reciclagem.
Nada mais.

 
O senhor poderia falar sobre o impacto do Rodoanel Mário Covas na região?
(FV) - É uma necessidade do ponto de vista econômico, mas está sendo feita na correria e tenho certeza que os engenheiros que ali estão esqueceram-se do impacto ambiental que fora causado, por exemplo, depois que uma árvore centenária que foi derrubada para a construção da rodovia. Mesmo assim, é uma obra que vai induzir o crescimento econômico, gerar empregos milhões em dinheiro. Só isso. O Rodoanel é uma obra de infra-estrutura que poderia ser a ponta de um novo modelo de desenvolvimento sustentável, de geração de empregos, de revolução nos transportes de verdadeira integração das sete cidades, da criação de centros de abastecimentos ecológicos e de descentralização do mapa habitacional e de trabalho da região. Mas isso não vai
acontecer, pois tudo deveria ocorrer sem pressa, com planejamento mais aprofundado, ou seja, um verdadeiro modelo de gestão de integração.
 
Então o rodoanel é uma falácia?
(FV) - Não. É apenas uma simples obra de transporte. É como a Avenida de 23 Maio [via que liga a zona norte à zona sul] em São Paulo. Quando foi construída todos falavam mal, hoje é considerada vital.

Isto é um problema da cultura política brasileira?
(FV) - Imagine-se um dono de cassino em Las Vegas (Estados Unidos) jogando no próprio cassino. Eu faço as regras, então quando eu ganhar eu levo quando eu perder eu não pago. É o que os políticos deste país fazem.
 
Os políticos do ABCD estão nessa linha?
Não posso colocar todo mundo nessa linha, só porque é a cultura política. Com
esse método de eleição a cada dois anos cria-se o negócio da política e do emprego da política.

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